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Vida, amor e transpessoalidade


Publicado em: 06/08/2020 11:45
Por: Bahia Municípios Foto: Arquivo Bahia Municípios


Taurino Araújo – Advogado, jurista e escritor.

Vida, amor e transpessoalidade, que é, em síntese, a percepção além dos cinco sentidos. Esses são alguns temas abordados nesta  entrevista concedida ao Bahia Municípios  pelo Advogado, jurtista e escritor Taurino Araújo. Uma excelente reflexão para autoeducação e desenvolvimento pessoal: Empoderamento em tempos de pandemia por Covid-19.

Taurino Araújo nasceu em Jequié-Bahia no dia 25 de dezembro de 1968. Cursou Magistério em Ubatã e aos 17 ingressou na Faculdade de Direito do que depois se tornaria a sonhada Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Ao final do curso, foi escolhido o orador da sua turma, quando proferiu o discurso Por um caminho juncado de flores, conclamando a recém-estadualizada universidade a firmar um compromisso com a filosofia, a ciência e as artes, temas que se tornaram recorrentes na vida e obra deste grande pensador baiano.

Pesquisador nas áreas de Hermenêutica, Teoria do Direito, Transpessoalidade, Pensamento Sistêmico, Criminologia, História, Filosofia, Antropologia Jurídica e Campos Interdisciplinares, Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, 1993), Especialista em Planejamento Educacional pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO, 2002) e Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino (UMSA, Buenos Aires), autor de Hermenêutica da Desigualdade:uma Introdução às Ciências Jurídicas e também Sociais (Del Rey,2019) cuja primeira edição, de 2019, foi esgotada em apenas 39 dias e é um sucesso de vendas e de crítica, presente no selecionado catálogo da Library of the United Nations Office at Geneva (UN-OG), da Biblioteca do Congresso, da Biblioteca do IAI – Ibero-Amerikanische Institut Preußischer Kulturbesitz (Instituto Ibero-americano do Patrimônio Cultural Prussiano de Berlim), da Stanford University e outros tantos centros universitários do mundo. Teoria mundial considerada uma epistemologia brasileira.

 

Por: Dilton Santiago

Bahia Municípios – O senhor afirma que a Transpessoalidade é um problema da rotina contemporânea. O que é essa Transpessoalidade e como ela afeta as pessoas individual e/ou coletivamente?

Taurino Araujo – Isso mesmo. Com a perspectiva hermenêutica sobre a Transpessoalidade proponho uma metanoia (mudança de pensamento).   O fato de eu ser canhoto acelera processo, pois exige alinhamento dos hemisférios (risos). Pierre Weil lembra que o homem nasce sozinho, comunica-se com Deus sozinho e também morre sozinho. Transpessoalidade remete à possibilidade de compreensão além dos 5 sentidos. O pressuposto é que os sentidos tanto nos orientam quanto nos enganam. Cheguei à Transpessoalidade através da hermenêutica (ciência da interpretação) e a esta através dos oráculos, do esoterismo. Com Jung, aprendi sobre a interdependência entre consciente e inconsciente, sendo impossível o bem-estar de um sem o bem-estar do outro: consciência e razão são coisas distintas. Valoriza-se, também, as formas não-racionais de apreensão de conhecimento  para chegar-se ao verdadeiro centro da personalidade: o conhecimento da persona utilizada para triunfar e da “sombra” (lado oculto) somados à integração dos traços femininos  no homem (anima) e dos traços masculinos na mulher (animus).

Algo precisaria ser “revisto” e acrescentado?

Sim. É necessária uma reinvenção, até mesmo para completar o normalmente perceptível. O desafio, entretanto, é a tendência a ver tudo sempre “como de costume” (comme d’habitude), exclusivamente, a partir de qualquer visão paradigmática posta. Para quem não sabe, “como de costume” é o tema de uma canção francesa falando de um casal se separando, carregando o passado…  Com essa temática, comme d’habitude teve apenas sucesso restrito, mas isso possibilitou que Paul Anka a ouvisse na televisão francesa (melodia linda), adquirisse os direitos em língua inglesa para seu estúdio e reinventasse a canção (nada mais seria como de costume!) agora, sob o título de my way, imortalizada na voz de Frank Sinatra. A reinvenção ocasionou, também, o sucesso mundial da versão original, na voz de Claude François.

Para compreender a Transpessoalidade seria necessária atitude mental específica?

A hermenêutica de algo, segundo Heidegger e Gadamer, se refere ao mundo da experiência com esse “algo”, da pré-compreensão. Todos já somos a partir da estrutura prévia do sentido de algo. Ensino que a Transpessoalidade é texto e contexto para compreensão diferenciada e o mais completa possível (além dos 5 sentidos). É, portanto, questão relativa à existência do intérprete, além da aparência ou superficialidade. Em Verdade e Método, Gadamer recomenda examinarmos opiniões quanto à legitimação (origem e validez) libertando-nos de “pré-juízos” e preconceitos resultantes da realidade histórica do nosso ser. Quem quer compreender um texto, lembra Gadamer, “tem de estar disposto a deixar que ele diga algo por si”. É imprescindível abertura à opinião do outro ou do texto. A receptividade, nesse caso, não é neutralidade nem anulação, mas autopermissão para aprofundar-se e, desse modo, ampliar a pré-compreensão. Quem se permite, aprofunda e expande, interpreta e compreende quase que ao mesmo tempo.

Como se deu essa abordagem hermenêutica da transpessoalidade? Taurino Araujo: Desde o início, meu foco sempre foi melhorar a pré-compreensão do mundo, assim considerado texto e contexto. Nesse sentido, a influência de Gadamer  (verdade e método) foi fundamental. Uma ideia somente pode ser compreendida dentro de um contexto. Na perspectiva transpessoal, esse mundo, na forma como a maioria de nós o enxerga, é apenas um contexto menor.  Percebi que a Transpessoalidade amplia esse contexto. Gadamer se refere a um “círculo hermenêutico” e, a seguir, a minha Hermenêutica da Desigualdade a intuição ou “pressentimento” do todo (Jean Grondin) espetacularmente ocorre sem prejuízo da concepção do particular que, aqui, coincidirá com o próprio desigual.

Fatores externos teriam influenciado esse mergulho hermenêutico na Transpessoalidade? Com certeza. Recordando aquele contexto, identifico o início de meu percurso através da poesia, em 1983. A isso se segue a formação em magistério: “ensinar é o caminho que o professor escolheu para aprender” (Álvaro Vieira Pinto); a participação no movimento das Diretas Já, a agitação cultural, a vitoriosa luta pela estadualização de minha Universidade. Logo, o ingresso no curso de Direito, é algo extremamente enciclopédico: “o Direito serve à vida, é regramento da vida. É criado por ela e, de certo modo, a cria” (Pontes de Miranda). Pouco tempo depois me torno o mais jovem secretário de Administração do Brasil, crio o curso prático de redação, ainda em Ubatã. A concepção hermenêutica da Transpessoalidade, portanto, é uma jornada autodidática pautada pela necessidade de uma educação continuada, focalizada em educação, governo, negócios e terceiro setor. De algum modo, todos nós somos instados a fazer isso, se quisermos viver conforme os nossos sonhos, além dos grilhões ditados pelos condicionamentos sociais concretos.

Em que consiste o círculo hermenêutico? Sua perspectiva da Transpessoalidade é permeada por algo mais?

Mais ou menos na mesma época que comecei a trabalhar com o “círculo hermenêutico” me identifiquei também com o estilo de comunicação oriental, que é circular, mas, nem por isso, deixa de ser assertivo, tudo isso influenciado por minha visita de 15 ao Japão, em 2005. Sob o novo enfoque, então, entraria na totalidade. Em Gadamer, a capacidade de compreender é limitada pela profundidade e extensão das pré-compreensões quanto ao objeto. É necessário, portanto, compreender para compreender ainda mais. É a ampliação do contexto: o horizonte deve ser ampliado para nos tornarmos capazes de novas compreensões. É imprescindível desenvolver formas cada vez mais eficientes de comunicação e novas possibilidades de leitura do mundo aparente. Se observarmos a palavra, por exemplo, veremos que ela possui grande carga argumentativa, embora nos enganemos quanto às dimensões expressivas e informativas.

Algum teórico em especial o levou a relacionar Transpessoalidade e aspectos comunicacionais?

Na contemporaneidade, a palavra distingue o ser humano de modo decisivo. Philippe Breton escreve sobre a “palavra manipulada”, manipulada pela argumentação. O mergulho na Transpessoalidade permite “decodificar” mais eficientemente a conjuntura e fazer as devidas correções de rumo vendo, ouvindo, cheirando, degustando e sentindo a realidade além dos sentidos propriamente ditos. Nesse percurso, o mundo impõe a restrição cronológica, mas a Transpessoalidade permite ingressar no tempo interno do “infinito de possibilidade”: é o tempo psicológico (kairológico), do aumento da consciência, o que lida criativamente com sonhos e condicionamentos sociais concretos, tanto com sucesso quanto fracasso.

De que maneira a Transpessoalidade pode contribuir ou promover a construção de um código moral inteligente? A falta de Transpessoalidade afeta ou inibe o código moral do ser humano?

Segundo Erich Fromm, cada um de nós necessita desenvolver capacidade de relacionamento, formar laços e raízes, transcender para o domínio e controle da solução de problemas, desenvolver um claro sentido de identidade (o que se dá através da “desidentificação” com os limites impostos pelas dimensões físicas, energéticas, emocionais também referentes ao pensamento num verdadeiro exercício de força de vontade para direcionar e acionar tudo isso).  É possuir, portanto, um significativo sistema de referências ativas, que permita ao indivíduo imaginar e fazer numa sociedade que estimula a passividade e a orientação orientação para o marketing encorajando o desenvolvimento de “personalidade artificial”, conforme uma fantasia coletiva. Acredito que sonho, ousadia, planejamento e serviço podem realizar votos por um mundo plural, mais justo e mais humano. Nessa perspectiva, sonho relaciona-se ao elemento ar; ousadia ao fogo; planejamento elemento terra e água, ao serviço. A Transpessoalidade permite fazer esse tipo de link. Meu código moral é inteligente. Contém visão totalizadora.

O objetivo da reflexão que o senhor sugere é para a formação de indivíduos autossustentáveis? O que isso significa e como esse processo acontece?

Sim, sustentáveis através de um código moral inteligente. O mergulho na Transpessoalidade remete à autorrealização e autorrealização é sustentabilidade a partir de si mesmo. Quando transcendemos às motivações egoísticas, o propósito toma um sentido totalizante e a união com o todo é uma força sinérgica muito grande. No positivismo, o amor é base da “ordem e progresso”. Em seu estágio mais amadurecido Augusto Comte alça a moralidade ao estágio maior das ciências. Moralidade remete a amor e amor redunda em transpessoalidade.

Como seria possível, através da Transpessoalidade, começar a navegar em águas tranquilas?

Através da identificação dos valores que nos motivam a todos e a cada um estabelece-se um estilo ou combinação de estilos que se adapte à natureza e às aspirações de cada um, levando-se em conta a importância da permeabilidade alegria, felicidade, relaxamento, amor, generosidade, gratidão e liberdade nos diversos processos dinâmicos; a necessidade de visão grandiosa e, portanto, “empoderamento” para construção sentidos relevantes e de vínculos elevados; a integração pragmática do sonho, na perspectiva sonho-ousadia-planejamento-e-serviço, isso nos mostraria um ponto de equilíbrio, uma frequência temporária de conforto. Com o tempo, o viver criativo e o pensamento diferente; a liberdade de escolha e a comunicação eficaz que fundamentam a construção de um código moral inteligente,  através da integração de ética e estética, aparência e essência; objetivação, escuta ativa e afirmação argumentada do ponto de vista enquanto mecanismos para solução de situações complexas que são os desafios normais da gestão, autogestão, ensino, aprendizagem, dinâmicas sobre paz, respeito, amor, tolerância, felicidade, responsabilidade, cooperação, humildade, honestidade, simplicidade e união verdadeira, poderiam nos conduzir a novos estágios e, quiçá à autorrealização.

 O termo “Samurai da voz” foi atribuído ao Senhor. Por que razão?

A união de ocidente e oriente em si mesma revela alguém que não se contenta em ser mero produto cultural. O ambiente no qual sou considerado “o samurai da voz” remete à cultura japonesa toda permeada por elementos que se traduzem em equilíbrio, harmonia, artes marciais, diferentes dos conceitos em voga no ocidente. Nos negócios, v. g., o caminho de um samurai seria demarcado pela paciência, virtude que se traduzira em longas rodadas de negociação e busca da compreensão da posição do outro para encontrar soluções adequadas. A alusão a “o Samurai da Voz”, portanto, é complexa, mas vou tentar explicar. Na prática, significa a combinação de sentido de justiça (GI); coragem (YU); compaixão (JIN); polidez; (REI); sinceridade (MAKOTO); glória (MEIYO) e senso de dever (CHUGO) alcançados com ou através do emprego das palavras, observando o BOSHIDO (código de honra do Samurai).

Como o BOSHIDO (código de honra do Samurai) fortaleceria tanto o seu discurso?

Paulo Freire ensina que o pensamento em si mesmo já constitui atuação no mundo, pois decorre de escolha. Na medida em que emprego o pensamento circular e me valho, de igual modo, de um “círculo hermenêutico”, isso redunda numa atitude direta, assertiva, semelhante à dos guerreiros. É como se estivesse lutando nesses moldes. A coragem moral com que faço isso traduz bravura heroica; amor incondicional à humanidade, com polidez e verdade totais, lealdade, semelhante à dos guerreiros tradicionais. Trata-se, portanto, de um estado de criatividade plena persona, sombra e anima estarão aí, integradas.

Mais algum teórico concorreria para essa abordagem hermenêutica da transpessoalidade?

Maslow. Cheguei até ele através da pirâmide de hierarquia das necessidades, culminando com a busca da autorrealização. Há uma dialética no pensamento circular empregado por mim e isso permite explicar quase tudo, com verdade total, modificando os contextos de intervenção. É o que a Psicologia chama de construcionismo social. A questão de ser “o samurai da voz” volta à baila justamente quando recebo o Título de Cidadão Benemérito da Liberdade e da Justiça Social João Mangabeira, um dos seis escolhidos em vinte anos de existência dessa honraria. Para os que compartilham dessa comparação, isso seria a glória no (do) processo comunicativo. No meu caso, demarcado por recorrente apelo ao holismo e ao desenvolvimento transpessoal. Na perspectiva de Maslow, tratar-se-ia de um movimento cada vez mais forte em direção à unidade, integração e sinergia dentro de mim. Isso seria, naturalmente, a transcendência do eu estabelecendo contato com o outro. Parece que fiz a lição de casa, pois ser “o samurai da voz” implica (necessariamente) observar um caminho de autorrealização, através de recursos inerentes, pois “a força vem do interior”, esse lugar a ser reexplorado justamente numa perspectiva transpessoal. Unindo o sertão e o cais.

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