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Telê temia gastos com mulheres e carros, “fez bullying” e chorou depois


Publicado em: 21/04/2020 13:04
Por: Redação Bahia Municípios Com Enrico Bruno Do UOL, em Belo Horizonte/ Imagem: David Cannon/Getty Images


Exigente e muito disciplinador, Telê fazia de tudo para tirar o melhor dos seus jogadores dentro de campo.

Além do feriado de Tiradentes, 21 de abril marca também a data que Telê Santana da Silva, ou simplesmente Telê Santana, faleceu em Belo Horizonte, vítima de complicações de uma infecção intestinal. Telê morreu em 2006, aos 74 anos, deixando como principal legado seu estilo perfeccionista e altamente exigente, mas que não abria mão do futebol arte e da disciplina, capaz de conquistar admiradores e até discípulos, mesmo aqueles que já sofreram na mão do treinador. Para tirar o melhor dos seus atletas, Telê acompanhava de perto garotos e veteranos. A ‘marcação’ era cerrada também longe dos treinamentos, nas orientações sobre o futuro e o comportamento fora de campo. Às vezes, o técnico recorria à pressão psicológica em plena Copa do Mundo como forma de preparar seus atletas antes dos momentos decisivos. Nada que prejudicasse sua relação com os jogadores e que hoje ainda são vistas como lições importantes para alcançarem o rendimento esperado pelo técnico.

Além de carros e mulheres, Telê também se preocupava com o penteado dos jogadores.

Não foram só as cobranças por profissionalismo em campo que fizeram de Telê um grande técnico. Fora dele, o comandante também se preocupava com o futuro dos seus atletas e como eles gastavam seus salários, sendo contrário aos gastos com baladas e carros luxuosos. Até o tipo de cabelo poderia ser vetado por Telê, se ele interpretasse que o penteado poderia tirar o atleta dos trilhos. Isso aconteceu com o ex-atacante Macedo, que ganhou praticamente tudo pelo São Paulo.

No time do Morumbi, Macedo aperfeiçoou principalmente a batida na bola, frutos dos vários treinamentos incentivados pelo técnico. Mas essa relação nem sempre foi de harmonia. Quando Macedo tentou imitar os ‘dreads’ de Ruud Gullit, da seleção holandesa, Telê Santana barrou o novo visual. Mesmo com Cafu e Raí tentando convencer o técnico a desistir do veto, Macedo precisou abandonar o penteado depois de apenas uma noite com a novidade.

Técnico fez ‘bullying’ e pressão psicológica na Copa de 86

As características de Telê Santana também ficaram marcadas em pelo menos dois momentos da Copa do Mundo de 1986, em que o Brasil caiu nas quartas de final para a França, nos pênaltis. Em comum, as situações aconteceram com dois jogadores que precisavam pegar mais confiança para aquilo que estaria por vir.

O primeiro caso aconteceu com o volante Elzo. Considerado o ‘patinho feio’ daquela seleção, o jogador levou uma sonora bronca do técnico em pleno vestiário, incluindo ameaças de corte. A humilhação sofrida fez Elzo chorar e cogitar deixar o grupo, mas acabou surtindo o efeito que Telê queria. O volante permaneceu, foi bancado pelo comandante e terminou a Copa do México como titular.

De volta ao Brasil, o jogador teve uma nova conversa com Telê, mas, dessa vez, foi o técnico que chorou. Só então Elzo compreendeu a postura de Telê, que o preparou para superar a desconfiança que o cercava e ser um dos melhores jogadores em uma seleção repleta de craques.

Naquela mesma Copa, o lateral Josimar também viveu situação parecida. Convocado após a dispensa de Leandro, ele herdou a vaga de titular com a lesão do Edson. Mas Josimar foi praticamente ignorado por Telê nos treinamentos, mesmo com os excessivos treinamentos em busca de um elogio do treinador.

Aconselhado por Zico e Sócrates, Josimar não abaixou a guarda e acabou estreando com um golaço — vitória por 3 a 0 sobre a Irlanda do Norte —, além de ser recebido com um abraço e vários elogios do técnico após o primeiro jogo. Na segunda partida, ainda mais solto, o lateral acabaria fazendo outro golaço — goleada de 4 a 0 sobre a Polônia, pelas oitavas de final. No final daquele Mundial, o jogador foi eleito o melhor em sua posição.

Telê ainda fez história com futebol arte, Copa de 82 e uma revolução no São Paulo Imagem: Arquivo Folhapress Mineiro de Itabirito, Telê Santana fez história como jogador no Fluminense. Foi no Rio que ele virou o ‘Fio de Esperança’, ídolo da torcida tricolor e terceiro jogador com mais serviços prestados na história da equipe. Quando abandonou os gramados, ele nunca abriu mão dos seus valores.

Lembrado por ser muito ético, Telê seguiu com traços perfeccionistas, mas sem nunca exigir um jogo sujo ou desleal. Pelo contrário, era um dos mais adeptos do futebol arte.

Talvez por isso aquele Brasil de 1982 ainda é considerado um dos esquadrões mais encantadores do planeta. O mesmo vale para Telê Santana, treinador naquela ocasião e apontado por muitos como um dos maiores (ou até o maior) técnicos que a seleção brasileira já teve.

Em clubes nacionais, Telê também conquistou o primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, com o Atlético-MG. Mas seu trabalho mais vencedor aconteceu ao revolucionar o time do São Paulo. Foi no Tricolor paulista que ele recebeu a alcunha de ‘Mestre Telê’, já que contribuiu diretamente com o período mais vitorioso do clube e instaurou uma nova era na instituição. Além de um Brasileiro, em 1991, Telê também ajudou a levantar duas Libertadores (1992 e 1993), o bicampeonato mundial (1992 e 1993) e diversos outros títulos em um espaço de apenas seis anos à frente da equipe.

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