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Professor que já foi catador de latas cria computador ao custo de R$ 22 reais


Publicado em: 14/08/2020 16:16
Por: Maristela Crispim- Agência EcoNordeste Foto: Agência EcoNordeste/Reprodução


Batizado de HyTECHOne, o computador visa expandir o acesso tecnológico às famílias da baixa renda.

Hoje professor e pesquisador, Ciswal Santos, que precisou catar latinhas para custear os próprios estudos, desenvolveu um pequeno computador para ampliar a acessibilidade tecnológica a famílias de baixa renda.

Com custo inicial de R$ 22, o equipamento visa auxiliar crianças e jovens no acesso ao ensino remoto durante a pandemia de Covid-19.

Aos 31 anos, Ciswal é incansável na busca pela melhoria de vida daquelas pessoas com menos acesso a recursos, utilizando para isso a tecnologia. Ele também é autor de um projeto de geração de energia sustentável, captação de água e acesso à internet por baixo custo.

Um piloto foi implementado, em janeiro deste ano, na aldeia Muzumuia, em Moçambique, no continente africano, porque, além de não encontrar respaldo no governo brasileiro, ele enxergou nas crianças beneficiadas uma carência ainda maior.

O computador de baixo custo, batizado por ele como HyTECHOne (Oi, Tecnologia Um), foi desenvolvido com pequenos componentes eletrônicos, rodando um sistema operacional básico, que pode ser conectado a qualquer tela, seja de computador ou telefone celular.

Ciswal destaca que, com a pandemia da Covid-19 e as medidas de isolamento social, o incomodava muito o fato de os alunos terem que assistir aula remotamente e muitos deles não terem acesso a um computador. “Um computador é bem caro. A falta de acesso me deixa desconfortável desde sempre”.

Foi a partir deste incômodo que ele decidiu criar um equipamento que rodasse programas básicos, como reprodutor de mídias, criação de texto, planilhas e slides.

Com apenas R$ 22, o nosso herói tecnológico que conta ter se inspirado no Batman desde pequeno, criou um computador com duas partições e o uso de um cartão de memória SD como um HD de computador.

Medindo aproximadamente três centímetros, a memória primária fica armazenada em uma conta drive, em nuvem. O aparelho tem capacidade de recepcionar sinal Wi-Fi.

O computador pode ser transportado no bolso, mas precisa de uma tela, de TV ou smartphone para, por meio do sistema Windows 98, ter acesso à internet e programas como Word, PowerPoint e Excel.

Mas Ciswal já destaca que isso é provisório, uma vez que está desenvolvendo o próprio sistema operacional, que acredita ficar pronto em até quatro meses. “Vai ser um sistema de fácil acesso para quem não tem noção de informática. Será muito intuitivo”, ressalta o professor.

Ciswal já recebeu proposta de um grupo de empresários de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que querem investir na ideia e popularizar o aparelho no continente africano.

“Minha intenção era que ele se popularizassem primeiro no Brasil. Gostaria que os governos, não importa a esfera, investissem. Queria que popularizassem e dessem condições de estudo aos jovens para que não passassem o que passei”, declara.

Caso não apareça ninguém interessado em implantar o projeto no Brasil, mais uma vez, Ciswal deverá colocá-lo em prática fora do País, como aconteceu com oque o levou a estudar em Harvard e que está sendo desenvolvido em nações africanas. “Mas a prioridade é do Nordeste, do Ceará. Vou trabalhar em prol da população daqui”, faz questão de frisar.

O computador  foi desenvolvido com pequenos componentes eletrônicos, rodando um sistema operacional básico, que pode ser conectado a qualquer tela, seja de computador ou celular


Trajetória

Nascido em Palmares (PE), Ciswal passou a morar em Juazeiro do Norte (CE) quando seu pai, também professor, foi transferido para Serra Talhada (PE). Com a devoção familiar a Padre Cícero, pareceu a melhor escolha.

A separação dos pais foi o início de um período bem difícil para a família. A mãe ganhava R$ 15 por faxina. O valor era insuficiente para sustentar a casa e manter o jovem na escola. Foi quando Ciswal passou a trabalhar em um mercantil entregando as feiras de bicicleta.

Quando entrou na faculdade, antes de completar os 16 anos, percebeu que a dificuldade seria ainda maior. As fotocópias eram caras e tentou se valer de empréstimos de materiais e estudar nas madrugadas, mas com a rotina de trabalho e estudo, não conseguia ter um bom aprendizado.

Catar latinhas no entorno de um bar foi a solução encontrada para pagar caneta, caderno, fotocópia. O quilo rendia R$ 2. Em uma semana, conseguia três quilos e meio. O dono do bar passou a juntar para que ele não ficasse a noite por lá.

Ciswal lembra que, criança, já queria muito fazer um curso de computação, mas o valor do curso era a feira do mês e ele teve que se conformar com um curso de datilografia.

“Quando estava terminando o HyTECHOne, lembrei disso. Se, naquela época, aparecesse um Ciswal ou mesmo o governo… São as coisas que fazem a gente ter empatia com o próximo”, conclui.

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