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OPINIÃO: Não vamos nos calar


Publicado em: 08/05/2020 10:42
Por: Jamil Chade Colunista do UOL | Foto: Ricardo Borges/UOL


Neste 8 de maio, o mundo livre marca o dia da vitória contra o fascismo e o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, ainda que o front asiático fosse mantido por alguns meses. Ainda assim, trata-se de uma data sagrada para os sobreviventes e um marco contra uma ideologia supremacista. O dia 8 de maio é ainda uma data sagrada da conturbada biografia da liberdade.

Daquela vitória veio o redesenho do mundo, com repercussões diretas em nossas vidas diárias hoje. O mundo passou por um processo de descolonização que abriu um espaço para a liberdade de milhões de pessoas. Mas também vimos a consolidação do estado do bem-estar social e redes de proteção social em pleno capitalismo que também significaram liberdade.

Acima de tudo, o período foi um avanço real da democracia como uma promessa de controle do destino de uma população. Liberdades civis e direitos humanos são resultado também daquela derrota do fascismo.

75 anos depois, porém, o fascismo continua sendo uma ameaça e o ódio nas suas bases não desapareceu. Vimos isso de uma forma clara durante a pandemia, usada para justificar o lado mais negro do autoritarismo. A história nos ensina que não existem valas ou prisões para essas ideias.

Em alguns lugares, o passado é resgatado com orgulho, rescrevendo a narrativa. Em outros, a apologia ao crime passa a fazer parte dos cálculos políticos.

No Brasil, um grupo que despreza a democracia está no poder e o país já perdeu seu status de democracia liberal. Enquanto as máscaras ganham as cidades pelo mundo, em Brasília elas estão caindo. Nossos heróis estão morrendo como resultado, em parte, de uma overdose de ódio e desprezo.

O presidente recebeu um criminoso com sangue em suas mãos. Luvas ou máscaras não eram necessárias, já que o vírus parecia instalado. Junto com seus cúmplices, o presidente cruzou a praça – e as fronteiras – para intimidar a lei. Atacou a liberdade de informação e, em pleno momento de dor de uma sociedade, banalizou o mal.

Um primeiro secretário da Cultura se vestiu de ator e montou um cenário para mostrar seu fascismo. Quem o substituiu retirou a fantasia que usava para entrar na casa de milhões de brasileiros para mostrar exatamente a mesma coisa.

A história não os poupará. O mundo não os está poupando. A cada dia que passa, a comunidade internacional descobre com choque, tristeza profunda e preocupação quem eles são.

Relembrar o que o dia 8 de maio significa é fundamental. Mas não basta. A liberdade depende de pensar de forma crítica, defender a dignidade de todos, a ciência, promover a tolerância e ensinar nossos filhos que o bem-estar do outro faz parte de nossa segurança.

Mas resistir significa, acima de tudo, promover o humanismo, a única arma. Não vamos nos calar.

Nem sobre o passado, nem sobre o presente e nem sobre o caminho futuro.

Não vamos nos calar, pois o silêncio diante do crime é crime.

  • Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

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