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Lançada biografia de Irmã Dulce, a Santa dos Pobres


Publicado em: 09/10/2019 19:52
Por: Jornalista Graciliano Rocha | Foto: OSID


Entre os mais de 100 entrevistados estão familiares da freira e importantes representantes dos meios católico, político e empresarial

Chega às livrarias ‘Irmã Dulce, a santa dos pobres’, a biografia da mulher que se tornará, em 13 de outubro, a primeira santa nascida no Brasil. A obra resulta de oito anos de pesquisa do jornalista Graciliano Rocha, que consultou documentos pelo Brasil, Estados Unidos e Itália.

Entre os mais de 100 entrevistados estão familiares da freira e importantes representantes dos meios católico, político e empresarial, como o ex-presidente José Sarney, o banqueiro Angelo Calmon Sá e o empreiteiro Norberto Odebrecht (1920-2014), este último amigo próximo da freira por mais de 50 anos.

Nascida em uma família de classe-média alta de Salvador, Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (seu nome civil) descobriu sua vocação religiosa poucos anos após a morte precoce da mãe, quando tinha sete anos.

Ela decidiu que seria freira depois que uma tia a levou para visitar cortiços de Salvador no final dos anos 1920. A obra mostra como Irmã Dulce se transformou em uma das figuras mais influentes do catolicismo brasileiro e reconstitui encontros da freira com Madre Teresa de Calcutá e com o papa João Paulo II.

O livro examina Irmã Dulce além da religião. Trata-se de uma mulher forte e empreendedora, que fundou um hospital, criou um orfanato e era o último recurso de pobres e doentes que não tinham outra porta a bater. Isso foi especialmente importante em uma época em que não existia o SUS e pessoas sem carteira assinada não tinham direito a atendimento em hospitais públicos.

Irmã Dulce antecipou em muitas décadas a chegada das mulheres a posições de liderança em um tempo em que a sociedade relegava um papel subalterno às mulheres. Ela assumia riscos e tinha enorme capacidade de tirar do papel grandes empreendimentos num mundo dominado por homens, sem se deixar dominar por eles.

A obra também ilumina o perfil político de Irmã Dulce ao examinar a relação da religiosa com o poderoso Antonio Carlos Magalhães e praticamente todos os presidentes da República desde Eurico Gaspar Dutra (1946-1950). De João Baptista Figueiredo (1979-1985), último presidente do regime militar, arrancou risadas e dinheiro para ampliar sua obra. Nenhum político foi tão próximo dela quanto o presidente José Sarney. Ela era uma das poucas pessoas que tinha o número de telefone que ficava na mesa do presidente no Palácio do Planalto.

A extenuante rotina de trabalho e os anos de penitência pessoal cobraram um preço alto de sua saúde. Ao final da vida, seus pulmões operavam com menos de um terço da capacidade e sua morte foi precedida por um ano de muita dor em uma UTI instalada em seu quarto no convento. O livro também apresenta detalhes e revelações sobre os dois milagres atribuídos à intervenção de Irmã Dulce e que foram reconhecidos pelo Vaticano que levaram os papa Bento XVI a declará-la beata, em 2010, e Francisco a torná-la santa, em 2019.

“Quando eu penso em Irmã Dulce, não sei se existe alguém que fez o que ela fez, entregar a vida para cuidar do pobre. Poucos fazem isso porque quase ninguém se importa. As pessoas boas, as que fazem o bem, estão fazendo milagres também.”

Desde então, essa passou a ser minha definição favorita de milagre. – trecho da entrevista com Cláudia Cristiane dos Santos, agraciada pelo primeiro milagre

Bastante devoto depois de tudo o que lhe aconteceu, José Maurício atribui a reversão de sua cegueira a uma graça celestial. Ao repassar todos os acontecimentos, ele acredita ter encontrado sua própria explicação para o questionamento sobre a razão da sua cegueira em 2000. “Hoje eu sei a resposta para aquela pergunta que fiz a Deus: era para ter o segundo milagre de Irmã Dulce.” – trecho da entrevista com José Mauricio Bragança Moreira, agraciada pelo segundo milagre

“Eu estava literalmente passando fome há dias, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiátrico onde fora internado por meus pais – não porque me queriam fazer mal, mas porque estavam desesperados para controlar o filho “rebelde”. Vaguei sem rumo pelas ruas da cidade, que me era completamente estranha, sem um centavo no bolso, até que alguém me disse que havia uma freira que poderia me ajudar – eu já corria o risco de ser preso por vagabundagem.

Fui a pé até a casa da freira. Juntei-me às muitas pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez, e de repente estava frente a frente com ela. Perguntou o que eu queria – e a resposta foi simples: “Não aguento mais, quero voltar para casa e não tenho como”.

Ela não fez mais perguntas (o que está fazendo aqui? Onde estão seus pais? Etc.). Eu não comentei que tinha fugido do hospício e que corria o risco de voltar pra lá. Ela pegou um papel em sua mesa, escreveu “vale um bilhete de ônibus até o Rio”, assinou, e pediu que fosse à rodoviária com ele e mostrasse a qualquer motorista.

Achei uma loucura, mas resolvi arriscar. O primeiro motorista que leu o que estava escrito no papel mandou que eu embarcasse. Isso era o poder daquela freira: uma autoridade moral que ninguém ousava desafiar”

Paulo Coelho, em trecho exclusivo para o livro ‘Irmã Dulce, a santa dos pobres’

Ficha Técnica 

Irmã Dulce, a santa dos pobres

Graciliano Rocha

296 páginas

R$ 49,90

Graciliano Rocha nasceu em São Paulo, em 1976. Formou-se em Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Trabalhou no jornal Folha de S.Paulo, onde cobriu temas como a renúncia de Bento XVI, a guerra do Mali (África) e a operação Lava Jato. Atualmente, é editor do BuzzFeed News no Brasil.

 

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