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Desafios do Sinjorba diante das novas narrativas do mundo


Publicado em: 26/09/2019 11:13
Por: Tasso Franco | Foto: Divulgação


O que vai acontecer com os jornalistas ninguém é capaz de prever ainda.

O Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia (SINJORBA) está com nova diretoria à frente com o presidente Moacy Neves e uma equipe diversificada e vinculada politicamente as chamadas forças da esquerda. Isso pouco importa porque os patrões das empresas de comunicação na Bahia nunca deram a atenção devida ao SINJORBA e as conquistas dos profissionais de imprensa sempre foram às duras penas, e muitas delas, individualizadas. Eu mesmo negociei com A Tarde, na década de 1980, um dx a mais no meu capilé para assumir a Editoria de Politica e o Caderno de Cultura.
Recentemente, aconteceu um fato dessa natureza com o jornalista Levi Vasconcelos, o qual a empresa exigiu que ele fosse exclusivo (também trabalhava na Band e no Bahia Bá) e ele topou desde que A Tarde fizesse um plano de saúde. Está com 64 anos de idade e como jornalista não tem plano de saúde, salvo os efetivos do Estado (Planserv), a empresa topou e ele também.
Leio que Moacy Neves quer se empenhar com sua diretoria na melhoria das condições de trabalho dos jornalistas diante da precarização da profissão e das novas configurações trabalhistas, entendidas como retrocesso. E, por posto como básico, a defesa da liberdade de expressão. Desafios enormes diante da nova ordem global com as novas tecnologias em cursos e a IA (Inteligência Artificial) avançando o que, em parte, independe de regulações trabalhistas porque quem dita o mercado já não são mais as leis formais produzidas pelo Congresso Nacional.
A profissão de jornalista passa por uma mudança radical e rápida. Uma nova narrativa imposta pela internet que mudou o mundo e atinge a todos. Faço parte do SINJORBA há 51 anos desde a época do ‘velho’ Pelegrino, pai de Nelson Pelegrino, e do ‘eterno’ presidente Anizio Félix, um momento em que as redações dos meios impressos eram fortes e as discussões de avanços salariais eram firmes e permanentes, e ainda se usava máquinas datilografias nas redações e linotipos nas oficinas.
A primeira mudança da nova ordem veio com a implantação da Tribuna da Bahia, em 1969, com a off-set e o fim da oficina de chumbo e das clicherias. No antigo prédio de A Tarde o último andar era ocupado pela chicheria de Egídio. Evaporou-se. Todos os linotipistas se aposentaram (ou trocaram de profissão) em 1976 quando o DN fechou. Lá atuavam Duquinha e Batatinha. Na época, foi uma tristeza. Essas pessoas (a maioria) não tinha mais pique nem vontade de mudar de profissão. Batatinha foi dedicar-se ao samba até morrer.
Em 1993, implantei o Bahia Hoje o primeiro impresso informatizado (por completo) no Brasil. Foi uma correria. Todo mundo correu atrás. Lá se foram embora as máquinas de datilografias, os laboratórios fotográficos, os diagramadores, os copys e paginadores. Montei uma redação completa com 90 pessoas e o jornal saia de domingo a domingo. A Tarde tinha mais de 210. Então, lá se foram embora muitos empregos. Ainda que um laboratorista de fotos se reciclasse, a narrativa profissional dele mudou.
O SINJORBA teve grande atuação no fechamento do Bahia Já relação trabalhista, assim como na crise de A Tarde já neste século. As inovações na Bahia acontecem sempre com atraso. A Tarde demorou de perceber as mudanças e ferrou-se. Em 1989, ofereci modernizar o jornal com computação gráfica e Jorge Calmon, temendo perder o poder de controle da redação não topou. Isso só veio acontecer quase 10 anos depois. E quando chegou a internet (sites) ainda se guardava uma boa noticia (um furo) para dar no impresso e não no meio eletrônico.
Creio que o grande desafio do SINJORBA nos dias atuais é mapear a realidade baiana na internet e preservar a liberdade de expressão. O Bahia Já tem 12 anos e responde a 3 processos na Justiça e já foi notificado (tb judicialmente) para retirar mais de uma dezena de matérias. Quando lançamos o Bahia Já em 2006 havia poucos sites e blogs jornalisticos na Bahia. Algo em torno de 10 a 20. Hoje, são mais de 2000. Temos 417 municípios e todos têm sites e blogs, alguns deles com 10 a 20 veiculos. E, muitos deles, de radialistas.
Olha que fenômeno interessante aconteceu nas eleições de 2016, as municipais. Muitos candidatos a vereadores no interior lançaram páginas na internet. Perderam as eleições e transformaram essas páginas em blogs e sites de noticias. Como o SINJORBA vai controlar uma situação dessas? A Tribuna da Bahia passa dificuldades financeiras há anos. Recentemente saiu uma postagem via web dizendo que os jornalistas de lá estavam sem receber salários há três meses. Como resolver isso? Quem é o presidente da ABI?
A retração do mercado para jornalistas vai continuar. Hoje, o maior empregador da categoria é o Estado, os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário. Os jornais estão com imensas dificuldades. Naturais diante do avanço da internet. Vocês já devem ter notado que a profissão de jornaleiro praticamente acabou. Tinha um senhor que vendia jornais no Monumento Clériston, Ondina, há anos. Com a debacle, passou a vender rosas. E, agora, sumiu de vez. Ou seja, está em outra narrativa.
Para nós jornalistas é muito dificil mudar de narrativa. Os mais jovens ainda têm até tempo para isso. Os mais velhos, adeus. Até mudamos alguns de nós para o marketing político que também caiu de vez, ou quase desapareceu. As redes sociais são a salvação. É o que dizem. Recentemente, conversando com um deputado ele me disse que tinha uma mala direta via Correio com algo em torno de 30 mil eleitores. Evaporou-se. Nem carteiros existem mais nas ruas. Quer mudar digitalizando para enviar aos seus prováveis eleitores. Mas, esse envio, só pode ser feito via robô.
Os robôs e a IA vão tomar ainda mais nossos empregos. A ordem é acompanhar a narrativa, reciclar e seguir o que acontece no mundo. Esse é grande desafio do SINJORBA.

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