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Bolsonaro quer encher a sua boca de porrada


Publicado em: 24/08/2020 8:34
Por: Matheus Pichonelli /O Globo


No domingo 23, depois de visitar uma catedral, em Brasília, Jair Bolsonaro transbordou o peito cheio de paz e amor cristão manifestando a vontade de encher a boca de um repórter do jornal O Globo de porrada. Ele acabava de perguntar ao presidente qual era a explicação para o repasse de R$ 89 mil, feito pelo ex-assessor em prisão domiciliar Fabrício Queiroz, à primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O presidente, como um homem de fé, poderia ter explicado ao jornalista que aquela não era a ocasião. Era domingo, afinal, e domingo pede cachimbo, não perguntas relacionadas ao trabalho. E se colocado à disposição para atender a qualquer pergunta na segunda-feira.

O problema é que, desde a prisão do amigo e ex-assessor do filho, na casa do advogado da família, em atibaia (SP), Bolsonaro não responde a pergunta alguma de jornalistas nem em dia santo nem em dia da semana.

A repentina perda da voz levou alguns a imaginar que Bolsonaro estava domado, como o touro da música sobre domingo, cachimbo e buracos profundos. Em sua reestreia, mostrou que aquele era mais um mito associado à sua figura, que desbota à luz do sol e tem alergia ao jornalismo profissional.

Bolsonaro prefere os bajuladores, a quem dedica tempos de entrevistas exclusivas e fatias generosas dos bolos publicitários oficiais.

Ao ser confrontado, atirou no que viu e acertou no que não viu. Ou não quer ver. A agressão não foi dirigida, apenas, a um jornalista que num domingo de plantão cumpria sua função profissional ao acompanhar a rotina de um presidente, que enquanto for presidente será escrutinado até quando vai à missa, como todos os antecessores o foram.

Como tréplica, recebeu uma enxurrada de questionamentos no Twitter e viu a primeira-dama parar nos trending topics. Foi-se o tempo em que bastava ameaçar jornalista e botar tarja no jornal para estabelecer censura prévia.

A agressão foi dirigida a todo mundo que quer saber por que a mulher do presidente recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz. Aproveito este espaço para reforçar a perguntar: por quê, presidente?

Se você que me lê não compra versões oficiais nem aceita o culto à personalidade exigida pelo presidente que não quer dar satisfação aos cidadãos que ele deseja transformar em súditos, é melhor não perguntar demais. Ao atacar a imprensa, Bolsonaro deixa claro que quer encher de porrada a boca de qualquer um que o conteste. Amanhã pode ser você.

Matheus Pichonelli
Formado em jornalismo pela Cásper Líbero e em ciências sociais pela USP. Cobri minha primeira eleição em 2006, pela Folha de S.Paulo, e desde então tenho tentado entender (e compartilhar) o impacto das decisões políticas em nossas vidas cotidianas. Pelo Yahoo, acompanhei as eleições de 2014 e 2018. Tenho passagens também pelo portal iG, CartaCapital e UOL, onde mantenho uma coluna sobre comportamento, além de colaborações para veículos como The Intercept Brasil e o jornal O Globo.

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