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A democracia vencerá, é uma necessidade histórica


Publicado em: 25/08/2018 0:31
Por: Roberto Amaral


As chamadas ditaduras de novo tipo, ou modernas, distinguem-se do modelo clássico porque, para a tomada propriamente dita do poder, não precisam mais fraturar a ordem legal, nem dependem da movimentação dos tanques.

Os mecanismos de conquista e conservação do poder mudam, mas a essência – o totalitarismo — continua íntegra. Ou seja: o que está diante de nós não é uma eleição pura e simples, mas saber se o projeto autoritário anunciado pelo capitão poderá ser implantado com a sanção do voto popular.

Esta é a ameaça que ronda nosso futuro imediato, se a lucidez organizada, mobilizando as grandes massas,  não se impuser sobre a loucura.

A configuração totalitária que começa a definir-se na linha do horizonte chega cavalgando um processo eleitoral caracterizado pela manipulação da política pela mídia, pela exploração do primitivismo religioso, pela disseminação do ódio, pela violência e pela mentira que toma o lugar do debate, silenciado.

Já é uma ordem de violência à qual as forças armadas não podem mais negar seu comprometimento, igual ou maior do que o do poder judiciário e do grande capital, desapartado do interesse nacional.

É impossível indicar o que é o escândalo maior, se a manipulação das redes sociais pelas chamadas fake news exploradas em nível até aqui inimaginável, se a comprometedora omissão da justiça eleitoral, se a irresponsabilidade do chamado empresariado brasileiro, financiador dessa campanha, desde os idos de 2013.

Foi o grande capital que financiou a campanha contra Vargas (em 1954 e sempre) e as marchas contra João Goulart em 1964. Ontem, como hoje, resiste à emergência das massas, permanece  saudosista da lavoura e do eito, com a cabeça na casa grande e os sentimentos na metrópole, fosse Lisboa, fosse Londres, seja Nova Iorque, seja, mais agora, Miami.

As forças armadas, agindo como partido político, são as mesmas de sempre, sem qualquer compromisso com a democracia. Em seu histórico estão a ditadura do Estado Novo (1937-1945), a deposição de Vargas (1954), a tentativa de impedir a posse de  Juscelino Kubitschek (1955), as intentonas de Jacareacanga (1956) e  Aragarças (1959), a tentativa de impedir a posse de João Goulart em 1961 e, finalmente, o golpe de 1º de abril de 1964, e sua longa noite de 21 anos de ditadura.

A imprensa de hoje é a mesma que devotou incansável oposição a Jango, preparou o terreno para o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão do bolsonarismo, agarrando-se como craca ao que ele tem de pior.

Tanto a imprensa quanto o empresariado atuaram, seja naqueles idos seja agora, respaldados pelas forças armadas que, palavras do general Odílio Denys, o líder golpista de 1961, começaram a conspiração contra o governo constitucional no dia mesmo de sua posse.

Na divisão de tarefas sempre coube à imprensa a preparação da opinião pública.

O empresariado parece desapartado dos interesses do País e de sua gente.

Há poucos dias a joia da burguesia industrial veio ao Rio postar-se diante do capitão. Como incenso e prendas dirigentes de seis entidades nacionais que em seu conjunto empregam 30 milhões de operários e recolhem 250 bilhões de reais por ano (Estadão, 23/10/18), trouxeram seu apoio ao candidato protofascista.

O destino de seus operários não lhes diz respeito.

A Avenida Paulista comemora, mas, figurante em enredo escrito lá fora,  não é ela a dona da festa. Há muita coisa em jogo, quando o que conta é o destino de uma das maiores economias do mundo, uma população de mais de duzentos milhões de habitantes espalhada em território de cerca de 8.5  milhões de  km2,  um litoral de 7.491 km, uma das maiores reservas hídricas e minerais do planeta, o segundo maior produtor de alimentos do mundo.

O que está em jogo e em disputa  – valendo o preço de destruir a democracia brasileira –,   é  o pré-sal, a desmontagem das empresas estatais fundamentais para o desenvolvimento nacional, o Mercosul, o destino dos BRICS, nossa presença na África, nossa liderança na América do Sul.

O que está em jogo e em disputa é nosso papel de liderança no concerto das nações, crescente desde os idos de Juscelino e acentuado nos governos chefiados por Lula.

O que está em jogo e em disputa é a paz social, possível apenas com desenvolvimento econômico e perspectiva de ascensão social. O que está em jogo e em disputa é a democracia.

A grande mídia brasileira, mais uma vez, para ‘salvar a política’, leva a cabo  sua destruição, propiciando a emergência do arrivismo. Em 1960 inventou Jânio Quadros, e seu grande produto foram 21 anos de ditadura; em 1989 inventou Fernando Collor, e deu no que deu. Agora, seu invento é o capitão, o antipetismo e a antipolítica, colchão da marcha civil-militar protofascista que amanhã poderá estar governando nosso país.

Já assistimos a esse filme, e não precisamos reve-lo/revivê-lo para saber o que promete.

Todo Estado totalitário precisa de um inimigo, real ou inventado, de dentro ou de fora de suas fronteiras. A ditadura civil-militar instaurada em 1964 elegeu os comunistas, assim com o hitlerismo elegera os judeus e (como sempre) os comunistas.

Nas vésperas do golpe de 1964 o lacerdismo  criou os Comandos de Caça aos Comunistas. Nos anos brasileiros de chumbo, com o AI-5, a tarefa de exterminar a esquerda brasileira foi entregue aos órgãos da repressão, muitos financiados por empresários nacionais e mesmo estrangeiros, como a ‘Operação Bandeirante’. As forças armadas passaram a caçar o “inimigo interno”, deixando de lado a missão constitucional que as justifica, a defesa de nossa soberania.

Bolsonaro lamenta que, nesses tempos, os militares tenham mais torturado do que assassinado.

Em plena campanha eleitoral, manadas de  bolsonaristas já atuam pixando igrejas, agredindo e mesmo assassinando  adversários, como Romualdo Rosário da Costa, mestre capoeirista morto a facadas, pelas costas, em Salvador.

O que pretenderão fazer se acaso conquistarem o poder com uma carta branca preautorizativa de desmandos?

Quais serão as vítimas de suas milícias se a ‘ameaça comunista’ não poderá ser arguida nem mesmo como figura de retórica?

As eleições do próximo dia 28 não são o ápice do processo regressivo, porque, dependendo de seu resultado, poderão  ser  anunciadoras de dias ainda piores. Sua importância, ademais do escancaradamente óbvio, reside exatamente neste ponto de   intersecção, entre a continuidade democrática e o totalitarismo.

Sua importância está no fato de que também pode ser, precisa ser, o grande corte  na marcha batida da loucura pelo poder.

O terreno para o absurdo está sendo cuidadosamente preparado e é preciso expô-lo e denuncia-lo sempre, despi-lo das lantejoulas da retórica reacionária,  para tornar cada vez mais evidente a necessidade de evita-lo.

O deputado Rodrigo Maia, emergente do baixo clero parlamentar, como o capitão, anuncia que após as eleições, colocará em votação projeto que revoga o Estatuto do Desarmamento, facilitando a compra e posse de armas.

O general Sérgio Westphalen Etchegoyen, preparando o terreno para a repressão prometida pelo capitão, acaba de editar, com a assinatura do irrelevante locatário do Palácio do Jaburu, Decreto que cria ‘força tarefa de inteligência para o enfrentamento do crime organizado’. Compete a essa força  subsidiar a ação governamental ‘no enfrentamento a organizações criminosas que afrontam o Estado brasileiro e as suas instituições’. O texto do general se refere a tempo presente (afrontam), ou seja, a organizações que atuam, ou seja, já estão atuando, contra o Estado brasileiro e suas instituições.

Quais são essas ‘organizações criminosas’ que estão afrontado o Estado brasileiro e suas instituições?

O general não as nomeia porque  podem ser tudo que o ‘sistema’ decidir eleger como seu inimigo.

No passado foram as lideranças democráticas, os partidos políticos, as organizações sindicais, as incipientes Ligas Camponesas, o movimento estudantil, a Associação Brasileira de Imprensa; foi a Ordem dos Advogados, atingida por um dos muitos atentados pelos  quais são responsabilizadas as forças militares da repressão.

Amanhã, se não cortarmos pela raiz a ameaça fascista — está nos editoriais dos jornais e no discurso do candidato e seus filhos e porta-vozes – a caça será ao PT, ao PSOL, ao PCdoB. Certamente também ao MST e ao MTST, pode ser à Frente Brasil Popular e à Frente Povo sem Medo, mas pode ser, até, à CNBB (já objeto de ameaças) que, segundo bolsonaristas mais alucinados, ‘não passa de um antro de comunistas’.

Uma vez mais o ‘Brasil profundo’ poderá se curvar diante do mundo,  e, se não reagirmos vigorosamente,  lá estaremos nas pegadas da Hungria de Orban, da Turquia de Erdogan, da Itália de Giuseppe Conte, das Filipinas de Duterte e dos EUA de Donald Trump na caça às nossas bruxas.

Na ausência dos comunistas e dos imigrantes a malta cuidará dos  petistas e seus aproximados porque à noite todos os gatos são pardos e a repressão é daltônica. Pagarão o pato as organizações civis de defesa dos direitos humanos, e, com elas, de cambalhota, numa reação  que Freud explica, a repressão lançará suas garras sobre as organizações e as lideranças dos movimentos indentitários.

Nem sempre será necessária a ação do Estado, pois o totalitarismo sabe lançar mão dos seus fanáticos e todos podemos ser alvos de sua fúria estimulada: os ambientalistas, os sem-teto e os sem-terra, os nordestinos…

Inimigos a abater não faltarão.

O quadro eleitoral adverso não é, porém, uma fatalidade e contra as perspectivas do pior precisamos construir o melhor, investir, trabalhar, organizar, discutir, mobilizar, conquistar, emocionar.

Não creio na morte da alma brasileira.

Acredito que a democracia vencerá, porque é uma necessidade histórica.

Roberto Amaral
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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

 

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