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Uma candidatura imprescindível (ou O outro lado da miséria da política)


Publicado em: 05/06/2018 19:34
Por: Roberto Amaral


O adjetivo ‘guerreira’ passou a ser grafado e a ter curso corrente entre nós, designando aquelas companheiras que, na política ou em outros campos da atividade pública, se distinguiam pela bravura, pela coragem e pela dedicação com que se entregavam a determina causa.

Guerreira foi, até o último momento, Zilda Arns; guerreira foi Olga Benário Prestes até no seu holocausto; guerreira foi ‎Elza Monnerat; guerreiras foram Zuzu Angel e Sônia de Moraes Angel, assassinadas pelos esbirros da ditadura. Guerreira foi Marielle Franco, abatida em pleno florescer.

E há um número infinito de guerreiras anônimas, sem registro nos anais da História, torturadas ou não, ‘desaparecidas’ ou não, lutadoras sempre, muitas delas mães, viúvas, companheiras.

Nesse panteão Dilma Rousseff escreveu seu nome.

Permitiram-me as circunstâncias que a luta contra a última ditadura me levasse ao convívio – porta aberta à amizade — com mulheres valorosas às quais o adjetivo ‘guerreira’ se aplica com perfeição. Lembro-me de Cristina Tavares, força e coragem inexcedíveis, lutando, brigando, bradando até o último momento, insensível às dores da tragédia biológica que a afastou de nosso convívio.

Jamais a esqueceremos.

Lídice da Mata, em discurso na tribuna do Senado.

Nesse mesmo entrecho, e na luta contra a ditadura, travada no Parlamento mas travada principalmente na vida social, conheci, conquistando sua amizade (para honra minha) Lídice da Mata, brava e forte, destemida na sua aparente fragilidade física, lutando contra a ditadura e enfrentando, na Bahia, o braço civil do autoritarismo, medonho e perverso, representado pelo todo poderoso Antônio Carlos Magalhães, popularmente cognonimado de Toinho Malvadeza.

Acompanhei a luta de Lídice pela Anistia e na denúncia da tortura, ao lado de Theotônio Vilela, ícone das liberdades; acompanhei sua luta, ao lado de Dante de Oliveira e Ulisses Guimarães, e tantos outros, na campanha pelas Diretas-Já, na implosão do colégio eleitoral da ditadura e na frustrada eleição de Tancredo Neves.

Convivi com ela na memorável luta por uma Constituinte democrática; vi-a, valente na defesa de uma Carta voltada para a promoção das grandes massas sotopostas pelo capitalismo; recordo-me de sua luta contra as forças parlamentares da reação, organizadas em torno do que então se denominou de ‘Centrão’.

Restabelecida, como possível, a ordem democrática, dedica-se Lídice ao embate eleitoral, sempre do lado certo, navegando o mesmo rio ainda quando era necessário avançar contra a correnteza.

Líder popular, esteve ao lado de Lula e das forças democráticas e progressistas desde a memorável campanha de 1989. Sua voz permaneceu forte nas campanhas de Lula em 1994, 1998 e 2002. Esteve na linha de frente no combate ao pesadelo Collor e seria das primeiras defensoras dos governos progressistas de Lula e Dilma, cujo impeachment combateu com todas as forças, as mesmas que a levam a combater a ignomínia Temer desde a primeira hora.

Tudo isso para dizer que essa guerreira não chegou agora à cena política, e que sua história é um patrimônio que deve iluminar as novas gerações, isso sem dúvida, mas iluminar igualmente nossas direções partidárias em momento de gravíssima crise política que desorganiza nossos partidos – afastados de seus programas e de seus ideais – e leva o eleitorado ao desânimo, à descrença na via política como meio de resolução de seus problemas e do país.

Este momento gravíssimo da democracia representativa, abalada em sua legitimidade, este momento gravíssimo que atravessa o Poder Legislativo, cobra de nossos dirigentes e de nosso povo a candidatura e a eleição do que de melhor conseguirmos reunir em nossos quadros.

Lídice da Matta tem um currículo de dignidade e atuação na sua já longa carreira política. Não é novata, como já dito, e tem o que dizer e fazer, basta ver o que já fez: vereadora em Salvador, deputada estadual, duas vezes deputada federal, prefeita da capital baiana, senadora da República em fim de mandato, mandato, porém, que, não obstante seu brilho e bravura, dedicado a todas as melhores causas, pode não ser renovado se prevalecer, sobre a grande politica, a pequena política, a política miserável, a política mesquinha dos arranjos dos gabinetes onde quase sempre falam e são ouvidos argumentos estranhos aos interesses do progresso social.

Tive a honra de recebe-la em 1997 no Pardo Socialista Brasileiro, agremiação que então me horava, e assim te-la como companheira sempre que o embate doméstico nos punha frente ao dilema recuar ou avançar. Ela nos ajudava na caminhada em frente, na tentativa de preservar os ideais socialistas que nos haviam reunido na mesma sigla.

Em 2014, Lídice foi dos poucos parlamentares do PSB (recordo Luiza Erundina, Glauber Braga e João Capiberibe) que, insurgindo-se contra o despropositado e oportunista apoio a Aécio Neves, defendeu a candidatura Dilma. Mais do que isso, fez sua campanha na Bahia e apoiaria seu governo.

Eis uma vida pública extensa e coerente.

São esses os títulos com os quais pretende apresentar-se ao seu povo, o eleitorado baiano, ao pleitear a renovação de seu mandato de Senadora da República.

A esquerda, e de resto todos os progressistas da Bahia, que sempre, nos melhores momentos e nas horas mais difíceis, contaram com os préstimos dessa guerreira, têm, agora, ao abraçar sua candidatura ao Senado, a oportunidade de optar pela grande política, honrando as tradições cívicas do estado, contribuindo para a revisão dos tradicionais e renegados métodos do fazer político, que estão na raiz da grande crise que engolfa a vida nacional. O momento não nos permite errar.

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

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