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Quando protestos são tantos que não cabem em um cartaz


Publicado em: 13/05/2019 9:42
Por: Agências de Notícias Foto: Divulgação


O New York Times trouxe um caso interessante na última semana: um jovem foi preso no Cazaquistão após segurar um cartaz em branco em uma praça pública. Foi um protesto silencioso contra a falta de liberdade de expressão no país asiático. Depois do episódio, fiquei a imaginar o que aconteceria aqui. Não que espere ver alguém preso por carregar um cartaz em branco ou por fazer um protesto em silêncio. Sinceramente, acho difícil ver isso acontecer, por mais que se pregue uma mordaça invisível e autorizada por autoridades. É por estarmos tão perdidos diante de tantas perplexidades que sentimos vontade de falar contra algo sem nem saber exatamente o quê.

 

O Brasil segue com mais de 13 milhões de desempregados. Apesar de garantido constitucionalmente, o acesso à saúde é algo longe de ser universal – ainda que, em teoria, o Sistema Único de Saúde seja uma referência no mundo todo. Mesmo que os números da violência tenham sofrido recuo expressivo no começo de 2019, se morre com maior facilidade no país do que em países em guerra civil. E assistimos ao genocídio da população mais pobre –e preta -, simbolizado por mais de 200 tiros em um carro de uma família a caminho de um chá de fraldas.

 

Enquanto tantos problemas precisam ser enfrentados, perdemos tempo discutindo o uso de uma metáfora barata de “chocolatinhos”. As universidades, institutos federais, a educação básica e as pesquisas ficam em último plano, com contingenciamento de recursos. Isso no plano federal. Na Bahia, os professores das universidades estaduais seguem em greve e os cortes nas instituições de ensino passam com pouco alarde, pela estratégia de comunicação funcionar melhor por aqui.

 

A reforma da Previdência é um mal necessário, porém o Executivo insiste em termos que dificilmente passariam. Ao legislar por decretos, o Palácio do Planalto afasta ainda mais um Congresso Nacional já pouco simpático ao discurso contra a “velha política” e não constrói governabilidade suficiente para apreciar temas importantes para a nação. Pelas redes sociais, sobram embates entre figuras ligadas ao presidente Jair Bolsonaro, que criam tensões sem a necessidade que a oposição faça o seu papel clássico.

 

Talvez o atual momento político do Brasil possa ser comparado a junho de 2013, quando irromperam protestos pelos mais diversos rincões do país sob a desculpa dos 20 centavos. À época, o movimento cresceu muito, incorporou milhares de pautas e não produziu qualquer avanço prático de longo prazo. O tal do gigante adormeceu na mesma velocidade com que acordou e cá estamos, sem saber muito como reagir a todas as coisas.

 

Diferente do jovem cazaque, não acho que seríamos presos por portar um cartaz em branco por essas bandas. Mas invejo o cartaz em branco. São tantas razões para protestar que dificilmente conseguiríamos reuni-las em apenas um ato. Preferia eu que ele estivesse em branco por não ter pelo que protestar.

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