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ENTREVISTA: Ana Angelica O. Santos – Coordenadora do Sindilimp/Bahia


Publicado em: 16/05/2019 18:12
Por: Dilton santiago Fotos: Vitor Fernandes


A primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores de Limpeza Urbana da Bahia, Ana Angélica Oliveira Santos – que prefere ser chamada pelo primeiro nome, Ana –, nos recebeu com simplicidade e cativante sorriso para esta entrevista, na sede do.Sindlimp.  Natural de Itabuna/BA, Ana veio para Salvador muito jovem, com o firme propósito de concluir os estudos e conquistar uma vida melhor. Hoje, aos 54 anos – divorciada e mãe de três filhos – é, apesar de desconfiança e preconceitos, a coordenadora de  um sindicato historicamente dirigido por homens. A nossa entrevistada trabalhando em uma empresa terceirizada no setor de serviços gerais, batalhou muito antes de dirigir o Sindlimp.

Bahia Municípios – Nos conte um pouco o seu cotidiano de mulher, dona de casa, mãe e coordenadora de um dos maiores sindicatos da Bahia?

Ana – Quando cheguei em Salvador, fui trabalhar em uma empresa terceirizada que prestava serviço ao governo do estado, atuando na limpeza do Jardim Zoológico. Na época, só tinha uma filha e meu marido já trabalhava no Sindlimp. Após dois anos no emprego, percebi uma diferença no tratamento de classes. Havia a classe dos tratadores (responsáveis pelo trato dos animais) e a classe dos trabalhadores em serviços gerais. A empresa que os tratadores trabalhavam  tinha vale-alimentação e vale-transporte. Então passei a questionar por que a nossa  também não nos fornecia aqueles vales. O coordenador me disse que a empresa tinha um restaurante que fornecia alimentação aos seus empregados,, Isto não me convenceu. Como tinha acesso ao pessoal da administração, descobri que no nosso contrato havia a cláusula de concessão do vale-alimentação. Por isso resolvi ligar para o sindicato. Na época, pensava que éramos do Sindicato dos Comerciários, quando fui informada que o Sindilimp era quem representava os trabalhadores terceirizados pelo governo do estado.  Depois que liguei e formalizei a queixa, o Sindilimp se reuniu com a diretoria e formalizou algumas intercorrências por parte da empresa e enviou uma carta à secretaria listando irregularidades e exigindo o pagamento do vale -refeição.  Senti o preconceito na pele quando fui escalada para trabalhar num feriado de 12 de outubro, Dia das Crianças, e na hora do almoço recebemos a famosa “quentinha, feijão simples, arroz que estava com aspecto de sobras e queimado e um ovo frito. Lembro que não havia refeitório, e 42 trabalhadores se revezavam em um pequeno quiosque para almoçar. Revoltada, gritei: “Ninguém vai comer isso aqui não”. Não somos animais.

Naquele momento fluía sua veia sindicalista?

Acho que sim. E o pessoal gritava: – Ana e a gente vai ficar com fome? Eu já conhecia a área do zoológico e sabia da existência de um pomar com muitas frutas, então designei um grupo e pedi que cada um trouxesse um tipo de fruta, comeríamos frutas, não aceitaríamos a quentinha. Era protesto pacífico. O supervisor nos apoiou, e me perguntou o que ele iria fazer com as “quentinhas”  Disse-lhe que tínhamos um freezer e que deixasse  tudo lá. Perguntei-lhe por que os animais comem filé e nós temos que comer ovo frito? Nada contra ovo frito, mas, tratava-se de um desrespeito a nós trabalhadores. Comecei a incutir na cabeça dos companheiros o valor da nossa mão de obra.. Afinal, deixamos os nossos filhos em casa no Dia das Crianças para cuidar do bem-estar dos filhos dos outros.  Almoçamos frutas, e o coordenador sentindo o mal-estar  reinante resolveu nos liberar mais cedo.. Esta atitude nos ajudou bastante. Pior,foi enfrentar o diretor do zoológico que no dia seguinte me telefonou pedindo para  comparecer à diretoria. Ao relatar o motivo da nossa insatisfação,  ele pede à funcionária da copa para ver uma das quentinhas e constata que realmente aquilo não era comida para um trabalhador. Solidário, mandou fazer o levantamento dos tiquetes que nos deviam.  Talvez por nos apoiar, ele foi substituído por um outro diretor. Nesse período,  recebi o convite para participar da chapa que elegeria a nova diretoria do Sindilimp. Ganhamos e fui convidada para ser  coordenadora geral do sindicato.  Cinco vezes, eles reiteraram o convite, alegando que precisavam de gente nova,  Eu realmente temia pela  responsabilidade, mas fui vencida pela insistência deles.

Qual o primeiro cargo que você assumiu no sindicato?

Quando uma companheira se afastou, cogitaram meu nome para a Diretoria de Comunicação. A executiva se reuniu e, no primeiro mandato, assumi  a Secretaria de Imprensa.

Como se deu a interferência de SuÍca para que você se integrasse de vez ao Sindilimp?

Foi de extrema importância, porque houve um embate sério, depois de eleita, meu empregador me chamou e disse: “Olha não queremos bagunça aqui e estou te devolvendo para a empresa de origem”. Suíca me disse que sindicalismo precisava ser oxigenado com novas ideias e pessoas dispostas a lutar pelo trabalhador. Mas, naquele momento se formava dentro do sindicato uma corrente de oposição muito forte em reconhecer o trabalho dele, então resolvi, vir com a cara e a coragem. Comecei a construir o informativo. Suíca me direcionou muito. Depois ele me pediu para tomar conta da sede do sindicato em Camaçari.  O Sindilimp não teria essa representatividade sem a liderança de Suíca.

Na hierarquia do sindicato, você ascendeu de diretora para coordenadora geral. Como os associados aceitaram uma mulher ativista em um sindicato dominado por homens?

A base não aceitava porque houve um racha por disputa de espaço interno e isso causou um impasse muito grande, Suíca me designava para dirigir as assembleias e fortalecer nosso grupo.

Deu vontade de desistir?

Desistir não, mas eu não estava preparada, principalmente  para debater com a base da Revita que era constituída 100% de homens, e quando  cheguei na assembleia encontrei a oposição reunida já com informativo impresso,  cuja matéria da capa dizendo que eu  vendi meu corpo para estar na coordenação geral do sindicato, que Suíca tinha me dado dinheiro, que eu não representava as mulheres e muito menos a limpeza urbana, que não sabiam de que buraco  havia saído  essa branca….coisas assim. No final quando me concederam a palavra, respondi a cada um dos questionamentos e consegui acalmar a base, falei que não estava ali para tomar o lugar de ninguém e que havia sido eleita. Visitamos quatro garagens e quando chegávamos em grupo de oposição havia mais embates. Em contrapartida,  o que me passou muita confiança foram os grandes companheiros que me apoiaram, a exemplo do finado Edson Conceição, um guerreiro maravilhoso, Reinaldo, Zé Carlos, Cláudio e outros. Também contava com um grupo de homens experientes em questões de conflitos. Mas foi na JG (empresa terceirizada) que pela primeira vez senti a força do impacto da barreira que estava rompendo, quando um gari se aproximou de mim segurando um porrete para me intimidar. Mas hoje quando ele me vê, me abraça, sorrindo. E de lá para cá a gente vem construindo essa unidade. Eu gosto de ouvir muito, não gosto de holofotes. Suíca sempre me cobrava pedindo para levar as mulheres para o sindicato e eu respondia, “não é fácil” e ele retrucava: eu sei, por isso mesmo estou te pedindo. Em assembleia com o auditório cheio,  as pessoas perguntavam cadê Suíca? E eu respondi Suíca não precisa estar aqui pra gente definir as coisas.

Quantos associados possui o Sindilimp?

Na área da limpeza urbana, contamos com quatro mil e setecentos filiados.

Em que ponto a questão da desobrigatoriedade do recolhimento do Imposto Sindical afetou o sindicato?

Na questão crucial para o trabalhador – o emprego. Para mantermos a estrutura mínima funcionando, tivemos que demitir quatro funcionários.

Quais os benefícios o Sindilimp oferece aos seus filiados?

Primeiro, a manutenção do acordo coletivo, que para nós se trata de uma grande conquista frente às dificuldades, ao desemprego que vivemos, Além de ticket refeição, assistência médica em grupo e em algumas empresas a garantia de cesta básica E  a manutenção do piso da categoria – estabelecido em um salário mínimo.

Qual sua opinião quanto a ausência de disciplinas voltadas para o meio ambiente no currículo escolar desde o ensino fundamental?

Acho que a educação ambiental deveria ser obrigatória nas escolas. Porque estamos ”na zona de conforto”, jogando lixo em qualquer lugar. Um exemplo disso é o descarte do lixo depois que o carro coletor passa. Educar as crianças é mais fácil.

Quais os principais problemas de saúde enfrentados pelos profissionais de limpeza?

A principal causa de afastamento de trabalho da categoria é  por doença  – os perfuros cortantes. Muitos profissionais se cortam, manipulando o lixo. Mesmo usando equipamento de segurança.

A reforma da Previdência em tramitação no Congresso deixará uma grande massa de trabalhadores sem a aposentadoria especial. Em sua opinião a classe vai perder direitos adquiridos?

O gari se aposenta com as mesmas condições de um trabalhador comum da iniciativa privada, apenas mantemos em todos os acordos de trabalho celebrados a estabilidade, faltando um ano para a aposentadoria. Esse é um acordo que as empresas respeitam. Acreditamos que a perda maior será na parcela dos terceirizados.

Quais os maiores problemas que o sindicato enfrentará após a reforma da Previdência?

Vários. Sabemos, por exemplo, que quatro empresas contratadas pelo governo do estado descontaram dos trabalhadores e não repassaram os valores para a Previdência, isso durante quatro anos. Imagine a batalha jurídica para restabelecer essa situação.

Qual o salário médio de um gari?

Para uma jornada diária de sete horas e vinte minutos, um gari (coletor) recebe mensalmente R$ 1.600,00 se não houver faltas nesse período.

 

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*Luiz Carlos Suíca – é vereador de Salvador pelo PT e consultor jurídico do Sindilimp/BA.

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