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Debora Bloch fala sobre carreira e revela seu posicionamento político


Publicado em: 15/04/2018 16:25
Por: O GLOBO


Prestes a completar 55 anos e a estrear um novo personagem na supersérie ‘Onde nascem os fortes’, ela fala sobre trabalho, envelhecimento e feminismo

Geminiana, Debora Bloch vai completar 55 anos no dia 29 de maio. Ela é daquele tipo de mulher que conta o tempo a seu favor: bonita, alto-astral, descomplicada, muito boa de papo. Mais uma informação: veste o mesmo manequim 38 dos tempos de “Bete Balanço”, filme estrelado por ela em 1984 e que inspirou a pegada anos 80 do ensaio clicado pelo amigo Bob Wolfenson, em São Paulo

A forma física — reconquistada depois de uma viagem de carro pela Toscana com a filha, no ano passado — também tem a ver com Rosinete, personagem que interpreta na supersérie “Onde nascem os fortes”, uma história de amores impossíveis, ódio e perdão, que estreia no dia 23 e que tem como cenário o Sertão do Cariri, no Ceará. Religiosa e obsessiva, Rosinete usa o exercício físico como penitência e expiação ao praticar corridas noturnas. Para aguentar o pique da personagem, ela voltou a correr, com a ajuda de uma personal trainer, pelas ruas do Rio, na esteira e na “Bode Tech”, apelido que ganhou a academia frequentada pelos atores que gravam na Paraíba.

— A minha personagem é casada há muitos anos, é bem conservadora, religiosa, mas, ao mesmo tempo, tem uma contemporaneidade — diz Debora. — Ela vive um casamento bem machista, com um marido que tem uma amante e que ela aceita. É uma mulher que começa a história submissa, mas que está em busca de algo diferente. Voltei a correr por causa dela.


Feminista convicta, a atriz conta que trabalha e que se sustenta desde os 17 anos, quando subiu aos palcos na peça “Rasga coração”, espetáculo de Oduvaldo Vianna Filho e que tinha Raul Cortez e Ary Fontoura no elenco.

— A personagem é bem diferente de mim. É uma mulher que não trabalha, que vive para a família e que aceita o lugar onde o marido a coloca. Acho que, na prática, eu tenho uma vida feminista, sim, já que fui educada para ser independente, para ter uma vida profissional — afirma. — Vim de uma família modesta. Estudei em ótimas escolas e nunca passei necessidade, mas também não tive uma infância de luxo. Pago as minhas contas, trabalho e decido a minha vida — resume a mineira nascida em Belo Horizonte e que chegou às terras cariocas aos 14 anos.

 

Debora não se furta a falar de assuntos que muitos artistas preferem não mais comentar, com medo de verem seus contratos publicitários sumirem. Ela responde, com tranquilidade, cada pergunta. É a favor da legalização do aborto, por exemplo:

— Sou a favor do direito ao aborto para que essas meninas não fiquem tendo filhos que depois não vão poder cuidar. Sobre feminismo, acho que estamos muito atrasados. O feminismo que me interessa é o feminismo pelo qual lutava a Marielle Franco. Creche para as mães não deixarem seus filhos largados na rua e poderem trabalhar, direitos iguais para mulheres que moram em periferias e favelas. Vivemos um ciclo de desassistência à mulher. Se você olhar para o Rio, a maioria das pessoas vive em condições muito precárias. E é por isso que eu acho que estamos tão atrasados nas nossas questões feministas. Tantos anos, e a gente ainda não tem uma assistência básica para uma mulher poder trabalhar e viver dignamente.

Sobre a possibilidade de Bolsonaro se tornar presidente da República, ela se posiciona:

—Isso é o pior que pode nos acontecer. Crivella prefeito, Bolsonaro presidente. Não sei como é que vai ser. Estamos numa onda retrógrada assustadora .

A cobertura onde Debora mora há quase 20 anos, no Jardim Botânico, tem vista para o Corcovado, a Lagoa, o Cristo Redentor e as palmeiras imperiais do Jardim Botânico. Para a atriz, no entanto, o Rio não é uma cidade partida. Sua diversão e seu lazer não se restringem à Zona Sul. Ela já dançou charme sob o Viaduto de Madureira e, de vez em quando, é vista no Samba do Trabalhador, roda comandada pelo amigo Moacyr Luz, no Andaraí.

— Amo, acho um programão. Sei sambar bem. Além disso, sou metida, cara de pau. Entro na roda e toco ganzá. Ganhei o instrumento do Pretinho da Serrinha e, quando entro tocando, eles fingem que está ótimo — conta, aos risos.

Debora antes de Debora

A diva Fernanda Montenegro brinca que conhece “Debora um pouco antes da Debora”:

— Porque eu trabalhei e convivi com Jonas Bloch, o pai dela, que conheci em Belo Horizonte, numa das tantas vezes em que a gente viajava com a companhia, num extremo passado. Passei a conhecer Debora dentro de casa porque ela foi colega dos meus filhos, do Claudio e da Nanda. Depois, chegou essa atriz poderosa, aplicada, talentosérrima. Ela veio para uma profissão vocacionada. E isso dimensiona a sua presença no que ela faz não só na televisão, mas também no teatro. O último espetáculo dela que eu vi, “Os realistas”, tinha ainda Fernando Eiras, Emílio de Mello e Mariana Lima. Então, eram quatro atores maravilhosos. Mas a posição da Debora ali também era de produtora, tamanha é a sua desenvoltura. Tenho alegria de tê-la na minha memória tão viva e também no meu convívio pela mulher na qual ela se transformou. Tão talentosa, bonita, vocacionada.

Indagada se ela própria se considera uma mulher forte (depois de alguns segundos de silêncio), Debora responde:

— É, a gente não é só forte, não é? Mas acho que sim. Tem uma frase da Clarice Lispector que a Fernandona (Montenegro) sempre fala: “Eu sou mais forte do que eu”. Eu também diria que eu sou mais forte do que eu.

A firmeza com que a atriz leva a vida só deu uma balançada quando ela sentiu os efeitos da síndrome do ninho vazio. Na época em que os dois filhos saíram de casa para estudar fora do país, a atriz não nega que sofreu. Recém-formada em cinema pela School Of Visual Arts, universidade em Nova York, Julia Anquier, de 24 anos, hoje está morando e trabalhando em São Paulo. Ela e o irmão, Hugo — que vai fazer 20 anos em dezembro e que está terminando o segundo ano da faculdade de designer de games, em Seattle, também nos Estados Unidos — são filhos de Debora com o chef Olivier Anquier, com quem a atriz foi casada durante 15 anos e de quem se separou em 2006.

— Quando a Julia saiu, foi duro. Fiquei bem deprimidinha. Aí, quando o Hugo também foi, fiquei sem ninguém em casa. A gente não está preparada. Passei muito tempo dedicada a eles. Tive meio que reinventar a minha vida, mudar o foco. Tem uma hora em que você fala: ‘Bom, agora como é que é a vida, sem os filhos em casa?’ — afirma. — Depois que você supera, aí vem uma liberdade muito boa também. Vem uma nova adolescência. Você pode sair de casa sem se preocupar com a hora em que vai voltar. Bate a porta e vai viajar, sabe? Você começa a se sentir livre.

Para Debora, não é fácil envelhecer, embora se sinta mais resolvida hoje.

— Não é agradável. Você tem que colocar óculos para ler, fazer exames, tem que tomar o remédio do colesterol. Tem uma coisa física que vai mudando, mas é isso, né? A outra opção é morrer. Para uma atriz, é duro, porque você vive o tempo todo confrontada com a sua imagem —diz ela. — Você é vista no close, no HD, nesse 4k. É muito cruel porque não vemos uns aos outros no close. O cinema, então, é uma lupa. Mas aí também depende do que você prioriza na sua vida, dos seus valores. Por outro lado, tenho feito personagens tão mais interessantes agora que estou mais velha. Sinto que tenho mais recursos e experiência para fazê-los. Então, envelhecer é um mistura de coisas difíceis com outras fáceis.

Debora não vive conectada às redes sociais. Não faz muito tempo, sua conta no Instagram era privada.

— Resolvi abrir porque acho que é um canal de divulgação de teatro e de trabalhos, em geral. Não tenho nem muitos seguidores porque não sou frequente. Eu não gasto tempo demais em redes sociais. Não sou profissional nisso. Às vezes, demoro para postar. Também não fico vendo os comentários que fazem, nem respondendo. Posso passar dias sem olhar o Facebook.

Em casa, adora ver séries (cita “Transparent” e “Vip”) e ler. Está, ao mesmo tempo, às voltas com dois livros — “Um defeito de cor”, de de Ana Maria Gonçalves, e “O sol na cabeça”, de Geovani Martins. Além disso, adora receber amigos em casa, cozinhar para eles (dizem que a sua especialidade é o risoto), beber vinho. Mas, se precisa de uma dose extra de relaxamento, ela foge para a Praia do Espelho, no Sul da Bahia, onde tem uma casa.

— É um lugar onde você olha para dentro, desconecta.

Pergunto se está solteira. Debora prefere não responder, mas solta uma gargalhada. Para bom entendedor, um pingo é letra.

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